Gastronomia por Roberta Sudbrack
24/03/2008 ..
Emoção demais enjoa?
Outro dia ouvi essa frase e parei para pensar nela, mesmo que totalmente descrente do seu sentido. Emoção demais enjoa? Será? Pensei: se for assim é melhor eu pensar na possibilidade de voltar à veterinária! Ainda assim... acho que não seria diferente.
Que me perdoem os que ficam enjoados, mas na minha vida e na minha cozinha, emoção demais, é ponto de equilíbrio, por mais paradoxal que possa parecer. Fico enjoada é com a vida de quem finge não se emocionar. Eu admito que cansa, ah!, isso sim, porque como disse agora a pouco um amigo meu, o cansaço da emoção é bem mais doloroso do que o da ginástica. Imaginem então, como uma pessoa como eu, e os pobres coitados que diariamente me aturam, devem ir se deitar todos os dias...
Outro dia fuçando na internet – isso antes do meu computador ser levado para análises! – talvez, pensei eu, durante o meu processo de reflexão sobre o possível enjôo causado pelo excesso de emoção, ele tenha sido levado de propósito, no intuito de baixar a minha ansiedade emotiva e me impedir, entre outras coisas, de escrever – coisa que ativa e multiplica o meu senso emotivo. Pode ser.
Enfim, fuçando outro dia pela internet, achei um site onde alguém dizia: “Quero muito ir ao restaurante da Roberta Sudbrack, dizem que a comida dela emociona.” Tentei não me emocionar para não correr risco do enjôo. Não deu, mas o enjôo também não veio. No final de semana assisti a uma apresentação do Nelson Freire, como todas, aliás, antológica. Quem pode se privar da emoção que invade o corpo e a alma no exato instante em que ele entra em contato físico e, sobretudo, emocional com aquele piano? Chorei, muito. Mas enjôo, nada.
Agora a pouco, recebi de outro amigo, fuçador e emotivo compulsivo como eu, um link para um texto, acredito que seja um release, da Adriana Calcanhotto, sobre o novo disco – sei que o termo apropriado para os dias de hoje, é cd, mas acho disco tão mais interessante – entre acordes e histórias, ela fala também de lentilhas e quinoas... que embalaram a emoção da construção desse novo trabalho.
Se alguém puder imaginar a emoção – viu, é impossível não falar dela! – que foi para nós, o pessoal da cozinha, alimentar essas almas criativas nesse momento... Nem é bom falar, senão posso até chorar. Enjoar? Jamais!
Até!
26/03/2008 ..
Pressão!
Não sei se eu aprendi a viver com ela ou se já vim de fábrica com esse defeito. Defeito? Será?
Outro dia servimos, abrindo uma exceção, um jantar fora da casinha laranja para um número grande de pessoas. Não fazemos isso primeiro porque não temos equipe para tal. Segundo porque foge à filosofia do nosso trabalho. Terceiro porque simplesmente preferimos ficar quietinhos, ou não, na cozinha da casinha laranja à beira do canal todas as noites.
Era segunda-feira, o restaurante não abre, então pensamos: vamos lá! Os anfitriões eram pessoas queridas, então pensamos: vamos lá! O número de convidados era grande, a cozinha era pequena e o fogão era caseiro, pensamos: pressão! Vamos nessa!
Numa certa hora, já servindo o prato principal, falei: pára tudo! Porque está tudo tão calmo? Cadê a pressão? Sem pressão não tem adrenalina, falta frio na barriga e a mente não entra em colapso, ou seja, perde a graça! O couscous de camarão e caviar vegetal saiu lindo e o arroz de codornizes – preparado na hora, claro! – também. O canelone de maçã e farinha de pistache seguiu crocante e com a calda de nata quente! Ou seja, tudo impecável. Comme Il faut!
Mas então, o que faltou? Acredito que, para os convidados, nada. A festa estava linda, a bebida gelada e a comida preparada com esmero e precisão. Faltou a pressão que nos alimenta e atordoa as nossas mentes, tão necessária para a sanidade da mesma! Não é que a gente goste que as coisas saiam erradas, não me entendam mal. A gente gosta que elas saiam exatamente como saíram, mas preferimos o nosso chope na pressão!
Até!
28/03/2008 ..
Ondas...
A vida vai passando, a gente vai envelhecendo, as coisas vão mudando e os amigos se tornando vegetarianos! A princípio pode parecer assustador. Na verdade, se vocês se colocarem no meu lugar, é! A vida passar faz parte, contanto que a gente tenha dado a devida importância a todos os momentos que valeram boas gargalhadas! A gente envelhecer também é interessante, que imbecil seria não ver o lado bom dessa realidade. As coisas mudarem, bem, algumas eu assino embaixo, outras... Melhor não entrar nesse mérito. Agora, os amigos se tornarem vegetarianos, isso sim é sério!
Outro dia acordei assustada imaginando as coisas que não poderia mais servir aos meus amigos convertidos a essa nova filosofia alimentar. Perdi o sono naquela noite, mas no outro dia entrei na cozinha disposta a não poupar esforços e a não me render a qualquer obstáculo que aparecesse na expectativa de agradá-los.
Ainda estou me iniciando nessa nova aventura, acredito que em pouco tempo estarei me divertindo mais com essa nova realidade. Por enquanto estou tentando me adaptar, com a idéia e com o trabalho que isso vai dar! Ontem, cozinhei para dois amigos que amo muito, um entrou na onda, puramente de onda! A outra parece que dessa não sai mais. Só me resta então entrar de cabeça nessa onda também, mesmo que sem prancha de surf, que não tenho, mas pelo menos então, com uma bóia de braço, daquelas de plástico, para ter um mínimo de segurança!
De qualquer maneira as descobertas já começam a mexer comigo. Broto de camomila, fresco como a terra molhada, aveludado como o cacau, límpido como um copo de água gelado e com o retrogosto de um bom vinho...
Pensando bem, daqui a pouco acho que vou poder tirar a bóia de braço e me divertir nessa onda!
Até!
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